Capítulo 101
2656palavras
2023-02-06 11:40
“Por tanto tempo eu planejei isso tudo. E agora que aconteceu, me sinto um ser humano desprezível. Eu nunca fui uma louca por dinheiro. Mas tenho estado cansada de tudo, principalmente dos babacas com os quais me envolvo. Parece que tenho um ímã para atrair homens de má índole e canalhas. Nesta semana mesmo conheci um homem mais velho, que parecia ser legal. Até chegar no Motel e perceber que ele só queria se satisfazer. O desgraçado era casado e se não bastasse a noite horrível que me fez passar, me humilhou ao final, me tratando como um objeto. Sinto nojo e asco por homens como ele.
Mas Heitor... O que dizer do meu chefe? Depois de tudo que fiz pra chegar até a sala dele, jamais imaginei seu desprezo por mim ou pela pessoa que ele imaginou que estivesse ali.
Eu sei que todas as mulheres dariam qualquer coisa por uma boa foda com o CEO mais conhecido e disputado de Noriah Norte. Mal sabem que ele sequer beija na boca e eu fico tentando imaginar o motivo. Já ouvi que prostitutas não fazem isso por ser muito pessoal. O que se passa na cabeça daquele homem?
Jamais vou ter certeza se ele realmente me confundiu com Cindy. E se isso aconteceu, eu tenho pena dela. Porque ele não foi muito gentil. Parecia esperar pelo sexo, não importando qual mulher estivesse ali. Ao mesmo tempo, não vi excitação, embora ele tenha ficado duro. Foi tudo mecânico, igual ou pior que as relações anteriores que tive.
Não passou pela cabeça dele que eu pudesse ter furado os preservativos. Mesmo caindo de bêbado, ele exigiu camisinha. Por sorte, consegui trocar a minha em meio à confusão que ele fez.
Eu só tive uma chance. Levei duas camisinhas, mas ele não quis repetir. A probabilidade de eu ficar grávida é mínima. Mas vai que eu tenha sorte uma vez na vida... Só uma.
Bebi com ele. Uísque. Babi sempre diz que isso é bebida de rico. É ruim pra caramba. Mas acho que foi o que me fez ir até o final.
Ele é cheiroso. O corpo dele é perfeito. Seu pau é grande e se não fosse estar completamente sem noção do que estava acontecendo, creio que fazer sexo com ele possa ser algo extremamente prazeroso.
Exigiu que eu começasse fazendo um oral nele. Até aí em nada muda com o tipo de homens que me relaciono. Todos querem começar assim. Tive medo que ele não quisesse seguir depois disto. E realmente não queria. Antes que ele gozasse, aproveitei e sentei nele. E mesmo com todo nervosismo que eu sentia e medo, fiquei completamente molhada para ele. Casanova quase me sufocou enquanto fazia-me chupá-lo. E eu senti um pouco de prazer naquela hora, mesmo quando ele me chamou de vagabunda.
Ele gozou em tão pouco tempo e me mandou sair. Apesar de toda trama que fiz para envolvê-lo, eu quis gozar. Ele pouco se importou comigo. E nem deveria. Eu o usei, para ter um filho e ficar em casa, vivendo de pensão.
Se eu sou uma pessoa horrível? Não. Horrível foi o meu padrasto. E eu vou ficar rica e acabar com minha família de merda, sanguessugas, malditos, bandidos. Quero poder chegar no lugar onde morei e mandar aquele bando de desocupados para fora. Quero vê-lo na rua, pagando pelo que fizeram.
Agora é esperar e contar com a sorte. Porque engravidar de Heitor Casanova é contar com a sorte. Mas dar-lhe a notícia depois pode ser ainda pior. Explicar a um homem que sequer lembra que eu existo e a possibilidade de recordar o que houve no ato de concepção do bebê ser completamente remota.
Cheguei em casa e tomei um longo banho. Pensei que não conseguiria escrever sobre o ocorrido, de tão cansada que me sinto e confusa.
Espero que a complicação que tive com meu aborto no passado não interfira na gestação.”
Se eu sabia o que pensar depois de ler aquilo? Não.
Mil coisas passavam pela minha cabeça, tão rápidas que mal dava tempo de conceber cada uma.
Levantei e fui até o quarto de Ben. Maria Lua já dormia e ele estava lendo outro dos diários, com a luz da cabeceira acesa.
- Você... Você... – levantei o diário... As palavras não saíam da minha boca.
Ele fez sinal com o dedo indicador na boca, pedindo silêncio. Levantou e veio na minha direção, me retirando do quarto e fechando a porta.
Nos encaramos e ele abriu os braços. Deitei minha cabeça no peito dele, incapaz de falar ou pensar. Fechei os olhos. Tudo que eu queria era acolhimento.
- Não tinha como contar. Você precisava ler com seus próprios olhos.
- Ben... É tão inacreditável.
- Uma canalhice, Babi.
- Eu... Estou tentando não julgar. Mas eu julguei ele... Foi a primeira coisa que fiz quando ela me contou da paternidade. Ele...
- Foi inocente. Se “ela” tivesse embebedado ele eu acharia ainda pior... Se é que pode ficar ainda pior isso tudo. Caralho, ela foi uma desclassificada safada. Podemos fingir que não porque ela é nossa amiga. Mas foi um ato repugnante...
- Se Cindy tivesse feito isso, eu a julgaria eternamente. E a acharia a pior pessoa do mundo. – Tentei não odiar a minha melhor amiga que já estava morta.
- Sei que nosso raio de sol está aqui, neste momento. Mas Heitor vai surtar. Ele não tem a mínima noção que isso pode ter acontecido.
- Ele exigiu preservativo – eu ri, ironicamente, me condenando – Eu o julguei, apontei o dedo para ele dizendo que ele era um mentiroso por dormir com todo mundo sem camisinha.
- Você não teve culpa também. É só uma mulher apaixonada e ciumenta. Mas porra, eu jamais faria o que Salma fez.
- Eu também não, Ben. E acredite, eu já fiz um monte de porras na vida. Ele foi uma vítima nas mãos dela.
- Caralho, ele nem a beijou. Foi como se estivesse pagando uma garota de programa.
- Como contar a verdade a ele? Eu estou completamente sem chão.
- Vamos ter que usar o diário. Ele vai odiar a nossa amiga. E talvez nos odeie um pouco também. Mas ele vai recobrar a consciência mais cedo ou mais tarde e entenderá que não tivemos culpa. Chegou a ler a parte que ela menciona você quando o conheceu?
- Não... Não tive coragem de ir adiante. Estou sentindo uma dor horrível dentro de mim.
- Ela mudou completamente os planos por você. Jamais passou pela cabeça de Salma que Heitor Casanova poderia se apaixonar pela amiga louca dela. Foi quando decidiu que ficaria com Malu em segredo, não dizendo a verdade a ele. Porque ela não queria intervir no seu relacionamento com o pai da filha dela. Ela foi uma puta, vagabunda, desclassificada... Mas completamente fiel ao amor que sentia pela melhor amiga.
- Não vou chorar... Porque não tenho mais lágrimas. E porra, eu odeio chorar. – Limpei as lágrimas traiçoeiras.
- Babi, eu vou viajar assim que o dia clarear.
Desvencilhei-me de seus braços e o encarei:
- Assim? Do nada?
- Não é do nada. Este diário é a prova de que eu preciso lutar pelo meu homem. Vagabunda nenhuma vai tomar o que é meu.
- Vai me deixar sozinha, para contar a verdade a ele?
- Não. Estarei aqui na segunda-feira e iremos juntos. Eu jamais a deixaria sozinha neste momento, Babi. Vou cumprir com a minha palavra.
- Obrigada por estar sempre ao meu lado, Ben – o abracei – E se você acha que deve ir atrás de Tony, vá. Já tem ideia do que fazer?
- Não – ele riu nervosamente – Não tenho ideia. Mas eu preciso vê-lo, cara a cara e dizer que ainda o amo... Demais, tanto que chega a doer dentro de mim.
Olhei nos olhos de Ben e senti meu coração começar a intensificar os movimentos e o ar meio que faltar nos meus pulmões:
- Eu preciso vê-lo, Ben.
- Heitor?
- Sim, agora. Eu vou até lá. – Fui ao meu quarto e comecei a trocar de roupa.
- Agora? Vai chegar lá e contar a verdade? Deus! – Ele passou as mãos no rosto, nervosamente.
- Eu não sei o que eu vou dizer, mas eu preciso vê-lo. Eu necessito olhar nos olhos dele, senti-lo nos meus braços. E talvez seja hora de despejar a verdade nele, por mais que me doa e deixe-me cheia de dúvidas quanto ao que ele vai pensar ou como agirá. Não dá mais para esperar.
- Eu entendo perfeitamente o que você está sentindo.
- Culpa, raiva de mim mesma, raiva de Salma, raiva da porra da vida... Por que tudo tem que ser tão complicado?
Coloquei uma calça jeans e uma camiseta branca. Não estava em condições de escolher algo bonito ou sexy. Eu só queria conseguir chegar ao apartamento dele.
- Precisa arrumar os cabelos. E colocar um batom nos lábios. Você está pior que a Gata Borralheira. Se ele a vir assim, talvez nem a reconheça. – Ben arqueou a sobrancelha.
- Pouco me importa, Ben. Ele já me viu acordar ao lado dele, depois de uma noite de sexo sem trégua. Quer pior que isso?
Enquanto eu saía, ele me jogou a bolsa:
- Manda notícias. E volte antes de amanhecer. Preciso pegar um avião para a Itália.
- Se tudo der certo, volto com ele para buscar Maria Lua. – Sorri e lhe dei um beijo.
Chamei um motorista de aplicativo, temendo ser Daniel. Eu começava a amaldiçoar a noite em que o conheci, mesmo sendo a mesma que conheci Heitor Casanova.
Tentei encontrar mil formas de dizer a Heitor a verdade, de uma forma menos tensa ou brusca. Porque a verdade era quase inacreditável. Acontece que quando cheguei em frente ao prédio dele, fiquei imóvel, sem saber como agir.
Já passava da meia noite e era grande a possibilidade de ele não estar ali e sim na Babilônia. Talvez eu devesse ter ido diretamente para lá.
Olhei na porta e não havia interfone. Porra, isso era quase impossível. Teria que haver uma forma de contatar o apartamento dele em algum lugar ali.
Enquanto eu olhava pela porta de vidro fumê, com o rosto rente à transparência gelada, as mãos tapando a claridade vinda das lâmpadas da rua, tentando encontrar algo lá dentro que pudesse me ajudar de alguma forma, ouvi uma buzina ao meu lado.
Assustada, virei e me deparei com Anon 1 no carro.
- Anon? – Meu medo foi-se embora e toda minha insegurança acabou.
- Senhora Bongiove? – ele já estava com o vidro do carro abaixado – O que faz aqui?
- Eu preciso ver Heitor... Imediatamente.
- E... Já falou com ele sobre isso?
- Não. Não sei como fazer para entrar. Pode me ajudar?
Ele desceu e abriu a porta de trás para mim, a fim de que eu entrasse. Olhei-o, comprimindo meus olhos e enrugando a testa:
- Eu vou na frente, com você.
Eu mesma empurrei a porta e abri a da frente, sentando-me ao lado dele.
- A senhora nunca faz o que se espera. – Ele sorriu, coçando a cabeça.
- Ele está em casa? Já que... Não há ninguém no carro com você.
- Ele deve estar. Eu tinha ido fazer algumas coisas que a senhora Nicolete pediu.
- A aprendiz de bruxa. – Fiz uma careta.
Ele apertou o botão do controle e o portão abriu-se de forma automática. Nos encaminhávamos para o estacionamento no terceiro andar e aquele lugar eu já conhecia.
- A senhora Nicolete é uma boa pessoa.
- Só se for para você. Aposto que ela faz aulas de maldades com Celine Casanova.
Ele riu:
- Elas nem se gostam, se isso lhe deixa mais tranquila.
- Jura? Quem não gostaria de Celine Casanova, aquele doce de mulher?
Ele caiu na risada e eu não resisti, fazendo o mesmo:
- Ok, Anon, você conseguiu me deixar mais tranquila.
Anon abriu a porta para mim, antes que eu pensasse em fazer isso sozinha.
- Vou leva-la até o elevador, mas não irei acompanha-la, senhora Bongiove. Não é de bom tom, se é que me entende.
- Não, eu não entendo. Mas também não quero prejudicá-lo, Anon 1 – bati levemente no peito dele. – Valeu! Se eu não voltar em uma hora, pode por favor chamar a Polícia?
Ele arqueou a sobrancelha:
- Como assim?
- Talvez... Sei lá, eu possa estar morta.
Ele riu:
- O senhor Casanova jamais mataria a senhora.
- Ah, eu acho que sim.
- Tenho certeza que não.
Respirei fundo e segui até o elevador:
- Ei, Anon? – perguntei, já longe dele.
- Pois não, senhora Bongiove.
- Corre o risco da Barbie das Trevas estar com ele?
- A Barbie das Trevas não é a Aprendiz de Bruxa?
- A Barbie das Trevas é a dançarina oxigenada com cabelos falsos.
- A Barbie das Trevas seria a Loira do pau do meio?
- Sim, sim.
Ele pensou um pouco antes de responder:
- Eu não sei, senhora Bongiove. Não faço ideia de onde a senhorita Cindy pode estar.
- Qual o andar dela? – perguntei, curiosa.
- Segundo. – ele falou baixo, parecendo não querer ser ouvido.
- Longe para cacete do de Heitor – sorri – Gosto disso.
- Alguns andares de distância. – Anon observou.
- Bem, menos que algumas boas quadras, não é mesmo? Ela ainda está em vantagem. – Falei, tristemente.
Entrei no elevador e apertei o botão da cobertura. Meu coração já começou a bater mais forte novamente. Por que eu não conseguia controlar meu corpo e minhas emoções quando o assunto era Heitor Casanova?
Assim que fiquei de frente para a porta, apertei a campainha, sentindo minhas mãos trêmulas.
Não demorou até que Nicolete abrisse a porta. Percebi a surpresa no seu semblante quando pousou os olhos em mim:
- Bárbara?
- Oi... – Acenei, sorrindo, tentando ser simpática, o que eu sabia que não conseguia fazer muito bem.
Parecia que eu não conseguia enganar ninguém quando não gostava de algo. Minha cara não escondia.
- O que você quer? – Ela foi seca.
- Heitor. – Respondi de imediato.
- O que quer com meu filho?
“Nada de importante, só dizer que ele é papai. Ah, a propósito, você vai ser vovó, se é que quer ser chamada assim pelo meu pequeno raio de sol.”
- É bem importante, eu garanto. Ou não estaria aqui esta hora.
- Não acha que esta história já acabou, Bárbara?
Sim, eu poderia dizer que ela não tinha nada a ver com a minha vida e que não se intrometesse na de Heitor, pois ele era adulto e não precisava mais dela. Mas sabia que Nicolete era importante para ele. O amor que ele tinha por ela era de mãe. E hoje, mais do que nunca, eu entendia o sentido de “mãe é quem cria”.
- Nic, se eu disser que esta história está apenas começando, você acreditaria em mim?
Ela saiu da minha frente, deixando a porta livre. Entrei.
- Isso quer dizer... Que ele está? – Perguntei.
- Suba as escadas, vá até o final do corredor e abra a porta de vidro.
- Obrigada... Muito obrigada. – Tive até vontade de beijá-la por ela não tentar me impedir.
- Não me agradeça. – Ela sorriu de forma enigmática.
Subi as escadas de vidro, amedrontada. Teríamos que conversar seriamente sobre aquilo. Assim que cheguei no último degrau, segui pelo corredor iluminado, passando pela porta do quarto dele. Tinham outras duas portas, que imaginei serem quartos, sem ter certeza.
Quando alcancei a tal porta de vidro, não precisei abri-la para sentir meu coração se estraçalhar mais uma vez.
Abri a porta e gritei:
- Maldito seja o dia que o conheci, desclassificado.