Capítulo 15
2094palavras
2022-12-24 14:30
- Sim, aconteceu. Você está bêbada!
- Como... Você sabe? – tentei formular a frase corretamente.
- Vai tomar um banho gelado e cama. Amanhã tem seleção na North B.

- Como assim?
- Acabei de saber aqui na Babilônia, pelas minhas colegas. Estão contratando para várias áreas, mas o foco é em Marketing, Publicidade e este ramo. Vão estrear uma nova bebida... E não é cerveja. E é para ser um estouro no mercado.
- Eu vou... Tomar o banho... E... Assistir três solteirões e um bebê. Este filme é a nossa cara, Salma.
- Vai pro banho, Babi. Precisa estar na North B. amanhã cedo.
- Ok. Boa noite. Eu cantei no Karaokê... E eu canto melhor do que o Ben.
- Puta que pariu, vai dormir, Babi. Agora.

- Eu amo você, Salma.
- Eu também te amo, sua louca.
- O que houve? – Ben nem conseguiu abrir os olhos.
- Salma disse que eu tenho que tomar banho.

- Por quê?
Tudo girou e eu fiquei confusa, dizendo:
- Por causa do cheiro de água sanitária. Acho que causa enjoo nela.
- Será que quando ela chegar vai querer dormir com você? – ele olhou para mim, ainda recostado no sofá, praticamente morto.
- Eu acho que sim... E ela disse que as amigas dela gostam de Marketing e propaganda.
- E de dançar também? – ele arqueou a sobrancelha.
- Sim... Eu acho que pode ter mais alguma coisa que ela disse. Mas não lembro direito.
Ele ligou a televisão e começou o dar o filme “À espera de um milagre”.
- A gente não ia assistir outro filme? – deitei no braço dele.
- Eu acho que sim... Mas estava faltando letras no teclado. Então este entrou automático.
Assim que o filme começou, fechei meus olhos e apaguei deitada sobre Ben.
- Levante agora, sua preguiçosa.
Abri os olhos e senti Salma me sacudindo.
- Salma? – dei um salto. – Aconteceu algo com você?
- Não... Mas vai acontecer em segundos se você não levantar agora.
Levantei imediatamente, cambaleando.
- Eu não disse pra você tomar um banho gelado. A North B. está fazendo seleção.
- Sério? – olhei para ela, aturdida.
- Eu liguei para você... E avisei. Exatamente há seis horas atrás.
- Eu... Posso não ter ouvido.
- Ah, sim, você ouviu.
- Então eu não entendi. – Sorri, envergonhada.
Ben abriu os olhos e disse:
- Minhas costas... Minha cabeça... Acho que eu fui atropelado, porra.
- Eu não vi... Mas lembro que a gente estava junto... No Hazard. Mas também sinto dores... Será que fomos atropelados juntos? – tentei lembrar.
- Alguém deve ter trazido a gente.
- Caralho, o que vocês beberam? – Salma se preocupou.
- Tudo que tinha. – expliquei.
- Isso quer dizer que você não quer participar da seleção na North B? – ela perguntou.
- Claro que quero.
- Começou exatamente há quinze minutos, Babi. – Ela quase gritou e estalou os dedos.
- Mas... Hoje é sábado. – Enruguei a testa, confusa.
- Babi, é hoje. Vai pro banho! – ela me puxou pelo braço e colocou-me no box, ligando o chuveiro com água gelada sobre mim.
Estremeci e arregalei os olhos:
- Eu não estou mais bêbada. – Senti a pele arrepiar-se de frio.
- Entrevista. North B. Agora. – Ela disse, saindo.
Ok, eu tinha entendido. Mas nem estava tão empolgada. Eu recebi tantos “nãos” nos últimos tempos que nem tinha mais esperanças. Ainda mais na North B., que era o sonho de trabalho de qualquer pessoa que morasse em Noriah Norte.
Acabei o banho e escolhi uma calça jeans e um camisa branca. Tênis brancos completaram o look, com um cabelo molhado.
Quando cheguei na cozinha, Salma estava passando café. O cheiro estava impregnado em todo o apartamento. Peguei uma xícara e me servi enquanto ainda não estava completamente pronto.
- Amo o seu café. – falei enquanto sorvia o líquido quente.
- Não vai mesmo na entrevista? É uma grande oportunidade, Babi.
- Eu vou.
Ela me olhou dos pés à cabeça:
- Mas... Olha a sua roupa.
- Eu não vou mais usar roupa social. Não traz sorte e acho que as empresas não curtem. Estou indo pelo lado de que tenho que ser criativa e eu mesma.
- Mas você não é uma pessoa de jeans, camisa e tênis. Então esta não é você mesma. – Salma enrugou a testa.
- Também não sou a mulher de vestido de linho e terno.
- Foda-se. Faz o que você quiser. Está é com medo de conseguir o emprego, isso sim.
- Medo? – bebi o restante do café rapidamente. – Estou é desgostosa com tudo que está acontecendo.
- Se não for e arriscar, nunca saberá se teria dado certo.
- Sei disso. Por isso estou indo.
Olhei para Ben deitado no sofá, com a boca aberta, parecendo morto.
- Deve ter sido uma noite incrível. – falei.
- Você não lembra? – ela perguntou.
- Não muito... Uns flashes. – Dei de ombros. – Me deseje boa sorte.
- Não sei se você quer boa sorte. – Salma disse ironicamente.
Revirei os olhos e saí, tentando recobrar a consciência que devo ter perdido em algum lugar do Hazard, na noite que passou.
Fui andando até a North B., que não ficava muito longe dali. Realmente a empresa estava funcionando.
A North B. era a maior empresa do ramo de bebidas de Noriah Norte. E ficava na frente da Perrone, construída a pouco tempo, gerenciada por Sebastian Perrone, filho do dono.
Eu nunca soube de quem era a North B. e como ela funcionava de verdade. A única coisa que eu sabia é que era uma empresa séria, que remunerava bem os funcionários e estava na lista das melhores de trabalhar no país.
Entrei na recepção do prédio todo em vidro e mármore, com um piso que refletia mais que a imagem do espelho do meu apartamento. Tinha uma pequena fila, no balcão de informações. Fui até lá e percebi que todos estavam ali pela seleção.
Quando chegou a minha vez, falei:
- Vim pela vaga na área de Marketing.
- As vagas, no caso. – A atendente sorriu. – Sétimo andar. – Me deu um crachá. – Lá é a área de Marketing da empresa.
Um andar para marketing? “As vagas”? Deus, bem que o Senhor poderia reservar ao menos uma para esta pobre pessoa aqui.
Tinha seis elevadores, um ao lado do outro. E sim, todos funcionavam, óbvio.
Assim que o elevador chegou no térreo e abriu a porta, lembrei que havia esquecido meus documentos. Claro que não poderia fazer nada sem os documentos.
Já tinha iniciado a maré de azar. Fui praticamente correndo até em casa e peguei a carteira com documentos. Ben continuava morto no sofá e Salma já estava no quarto, provavelmente dormindo.
Quando desci estava suada, então não quis correr até a empresa novamente. Pedi um carro de aplicativo. E não, não era Daniel. Sim, eu acho que no real esperava por ele. Nunca mais nos vimos e ele praticamente sumiu da minha vida, isso depois de dizer que estava interessado em mim. Por este motivo eu não acreditava nos homens. No fim, eram todos iguais: mentirosos canalhas.
O motorista me deixou um pouco adiante da porta de entrada. Paguei e estava indo em direção à porta quando vi um Maserati prata estacionado. Olhei pelo vidro e observei o interior dele todo em branco e os bancos de couro bordôs. Devo ter babado de tão magnífico que era aquele carro por dentro.
Eu não era uma pessoa muito ligada em carros. Mas um Maserati era um dos poucos que me chamava a atenção, especialmente pelo logotipo da marca, que parecia um tridente de Tritão. Sempre achei que o criador daquele símbolo para logo da marca era alguém muito criativo e que merecia ganhar muitos troféus.
Olhei a placa próxima do carro: “Estacionamento privativo: CEO 1”. A vaga do CEO 2 estava vazia.
Toquei a lataria e um homem uniformizado veio até mim:
- Senhora, não pode ficar aqui. É área reservada.
- Me... Desculpe. – Saí rapidamente.
Sim, eu tinha uma seleção e estava preocupada com o Maserati estacionado. Corri e chamei o elevador novamente. Então finalmente cheguei no sétimo andar.
Não tinha muitas pessoas esperando. E ali, conversando com outras candidatos, eu soube que já estavam fazendo seleção desde a quinta-feira.
- Como eu não fiquei sabendo? – perguntei confusa para a moça que aguardava ao meu lado.
- Eles não divulgaram em muitos lugares, principalmente na internet e jornais de muita circulação. Afinal, é a North B, não é mesmo? Imagina se todos soubessem da seleção. Não haveria tranquilidade neste lugar. – Ela sorriu.
- Sim... – falei, tentando imaginar como seria se todos soubessem. No fim, tive sorte por Salma ouvir de alguém que eles estavam contratando.
Quando chegou minha vez, a recepcionista me deu uma ficha, onde preenchi meus dados dos documentos e pediu meu currículo online.
- A senhorita vai passar pelo CEO da empresa e depois da entrevista com ele saberá se segue no processo ou não.
- O CEO? – arqueei a sobrancelha. – Só por curiosidade: não existe mais RH nas grandes empresas? Que parte disso eu perdi?
- A vaga é para trabalhar diretamente com ele, senhorita... – ela leu meu nome na ficha. – Novaes. Então não acha que ele contrataria alguém sem saber como é a pessoa, não é mesmo?
- Sim... Tem razão. Não há homens... Para a vaga? – perguntei ao perceber que só haviam mulheres e as pessoas que chegavam também eram do sexo feminino.
- Para esta vaga, que trabalhará diretamente com o nosso CEO, é preciso ser do sexo feminino.
Enruguei a testa e ela me deu outro crachá:
- Siga para o 21º andar. Lá aguardará até o CEO atendê-la.
Voltei para o elevador e subi sozinha até o 21º andar. Enquanto não chegava me olhei no espelho e percebi que minha cara estava péssima.
A porta se abriu e entrei na sala que dizia CEO 1. Tinha também uma que era do CEO 2. Talvez o CEO fosse “a CEO” e por isso queria mulher. Ou era alguém muito inteligente, pois sabia que mulheres eram bem mais criativas. Certamente Sebastian se arrependeria de não ter me contratado se eu fosse para a North B.
Tinha uma secretária atrás de uma mesa enorme. Ela era loira, tinha cabelos até a cintura, descendo em ondas, completamente sedosos. Os olhos eram cor de mel e a blusa por baixo do blazer era decotada. Fui até a mesa e me apresentei, notando a saia curtíssima dela.
Que porra uma mulher quase sem roupa fazia ali? Certamente não era “a CEO” e sim “o CEO”... Tarado e pervertido.
Eu trabalhei em vários lugares e fiz entrevista em quase cem outros... E jamais vi uma secretária vestida daquela forma. Nem tão... Linda. Parecia capa de revista Playboy. Nem sei se ainda existia revista Playboy, já que agora o acesso a mulheres nuas poderia ser visto na internet... Ou mesmo na North B., com a secretária do CEO.
- Pode aguardar. Assim que a candidata que está lá dentro sair, chamo você. – Ela sorriu de forma simpática.
Sentei no sofá mais macio que a minha cama e fiquei a imaginar se eu não estava sendo má em julgar ela e o CEO. Dava para ver que o que ela vestia era de boa qualidade e caro. A roupa não definia uma pessoa. Se fosse assim, eu não seria uma boa candidata à vaga. Mas eu era apta, apesar de usar calça jeans e tênis. Então me senti péssima pelos pensamentos que chegaram a passar pela minha cabeça.
A porta se abriu e minha concorrente saiu de lá, usando botas até os joelhos e um vestido branco curtíssimo, com um casaco por cima. Não consegui ser discreta ao ver a calcinha dela sob o tecido fino e quase transparente.
Será que a vaga era para Marketing mesmo? Estaria eu no lugar errado? Será que a North B era uma casa de prostituição camuflada? E o CEO o cafetão?
- Pode passar, senhorita Novaes. – a secretária levantou, abrindo a porta.
Levantei, preocupada e confusa. Assim que passei pela porta e vi toda a cidade de Noriah Norte atrás do CEO, fiquei completamente sem chão:
- Casanova?
- Senhora Bongiove? – ele sorriu, sarcasticamente.
Agora eu entendi o motivo das mulheres quase nuas.